Alegrete · Rio Grande do Sul · Brasil
Letra de música

Tobiano Capincho

Noel Guarany · Payador, Pampa, Guitarra (com Jayme Caetano Braun)

Este tobiano da estância Foi o bicho mais maleva Que o diabo inventou pra um peão Zóio de chancho, cabano, Sargo, coiceiro, aragano, Maneteador e bufão. Peão que chegasse atrasado Na segunda, mui sovado Das farras pelo rincão. Já se sabia sua pena Era encilhar o ventena Que assim mandava o patrão. Uma feita, era segunda, Na estância ao clarear do dia Com cara de laço novo, cheguei Já estava o meu povo na mangueira E alguém gritou, quando já dava o cavalo Lace o tobiano capincho Pra esse que vem dos bochincho Do rincão dos cantagalo. Que sina. se eu tinha o peito Mais puro que a estrela d?alva Que bico de beija flor Qual bochincho ? se eu voltava De ver a prenda que amava Todo enredado de amor. Virge do céu! será o diabo Um cristão que andou bailando Por duas noites e três dias Com no ouvido as harmonias Da cordiona retrechando E o coração sarandeando Numa havanera macia. Nos olhos tontos de sono Como em espelho pequeno Aquele corpo moreno Com crespos que o vento bate E o aroma, a flor e o sereno Que vem na prosa em cochicho Ah! que aroma. eu não vi em bolicho Nem nos baú dos mascates. E os negros olhos ariscos Como iraras bombeadeiras Nas poças que a seca embarra Na sombra de um caponete E que maneia o ginete Como pialo de cucharra. Quanta coisa ela me disse Não dizendo quase nada. Quanta coisa ela entendeu Da minha boca cerrada. Porteira do coração. E agora eu, moço, monarca, Chego batendo na marca, No meu ofício de peão. Bonito, agora acordar De um sonho que é um lindo engano Soltar o corpo franzino Em que envidei meu destino Pra me trompar com o maligno Que é esse capincho tobiano. Chego. e, bom dia senhores, Largo já meio covarde E me respondem: boa tarde, Dormiu nas palhas, paisano Largue este e traga o buçal A la pucha, que é desigual A sorte de um campechano. Vinha o tobiano no laço Como dourado na linha, Ligeiro como tainha, Como traíra de açude Dando mais pulos e saltos Do que um calcuta na rinha. Ah! quando a sorte é mesquinha Não hai feitiço que ajude. Prá encilhá o venta rasgada Foi abaixo de oração E já maneado, enfrenado, Foi luta prá arreglá os troço. Rezei quatro padre nosso Só prá sentar o chergão. Cheguei a carona e os bastos E quando a cincha tinia O infame se foi pro céu Voltou e tombou de boléo Quase perdendo o chapéu Rezei quatro ave maria. E o urso, como um bodoque Traiçoeiro, olhando prá trás Com a cincha no osso do peito E eu lhe ajeitando, com jeito Por causa do capataz Depois de bem encilhado Tranqueou com passos de tango Muito mal intencionado. Encolhido e retovado Eu vi a minha vida pequena, Corri os olhos na chilena E olhei pra tala do mango, E na voz de vamo moçada Campeei a volta e montei Certito e firme nos bastos. Já o bicho vinha urrando Ladeadito e se bandiando Como quatiara de arrasto. Nós fomos daquela toada Nessa dança desgranida Em que um taura arrisca a vida Só pra honrar a pataquada. Depois, de focinho gacho Carona, apero e descida Na fúria despavorida De um touro na costa abaixo. Me encomendei pro senhor Também pra virgem maria Nem sei como resistia Assim, blandito de amor E sem amadrinhador Nesse lançante tremendo Me fui solito, me vando Mais triste que um payador. Rodou e ficou roncando Quebrado. É o fim do capincho E eu paradito e continuo A pensar desta maneira Por ti, a mais linda trigueira Gineteio a vida inteira No lombo do meu destino.
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