Alegrete · Rio Grande do Sul · Brasil
Letra de música

Bochincho

Jayme Caetano Braun · Payador

Capa de Payador
Jayme Caetano Braun

Bochincho

Payador · 1983
A um bochincho certa feita, fui chegando de curioso, que o índio é que nem sarnoso, nunca pára - nem se ajeita. baile de gente direita vi, de pronto, que não era, na noite de primavera gaguejava a voz dum tango e eu sou louco por fandango que nem pinto por quirera. atei meu zaino longito, num galho de guamirim, desde guri fui assim, não brinco nem facilito. em bruxas não acredito ´pero - que las, las hay´, sou da costa do uruguai, meu velho pago querido e por andar desprevenido há tanto guri sem pai. num rancho de santa-fé, de pau-a-pique barreado, num trancão de convidado me entreverei no banzé. e o chinaredo à bola-pé, no ambiente fumacento, um candieiro, bem no centro, num lusco-fusco de aurora, pra quem chegava de fora pouco enxergava ali dentro! dei de mão numa changaça que me passou no costado e já sai entreverado entre a poeira e a fumaça, oigale china lindaça, morena e de toda a crina, dessas da venta brasina, com cheiro de lichiguana que quando ergue uma pestana até a noite se ilumina. misto de diaba e de santa, com ares de quem é dona e um gosto de temporona que traz água na garganta. eu me grudei na percanta o mesmo que um carrapato e o gaiteiro era um mulato que até dormindo tocava e a gaita choramingava como namoro de gato! a gaita velha gemia, Ás vezes quase parava, de repente se acordava e num vanerão se perdia e eu - contra a pele macia daquele corpo moreno, sentia o mundo pequeno, bombeando cheio de enlevo dois olhos - flores de trevo com respingos de sereno! mas o que é bom se termina cumpriu-se o velho ditado, eu que dançava, embalado, nos braços daquela china escutei - de relancina, uma espécie de relincho, era o dono do bochincho, meio oitavado num canto, que me olhava - com espanto, mais sério do que um capincho! e foi ele que se veio, pois era dele a pinguancha, bufando e abrindo cancha como dono do rodeio. quis me partir pelo meio num talonaço de adaga que - se me pega - me estraga, chegou levantar um cisco, mas não é a toa - chomisco! que sou de são luiz gonzaga! meio na curva do braço consegui tirar o talho mas quase que me atrapalho porque havia pouco espaço, mas senti o calor do aço e o calor do aço arde, me levantei - sem alarde, por causa do desaforo e soltei meu marca touro num medonho buenas-tarde! tenho visto coisa feia, tenho visto judiaria, mas ainda hoje me arrepia lembrar aquela peleia, talvez quem ouça - não creia, mas vi brotar no pescoço, do índio do berro grosso como uma cinta vermelha que desde o beiço até a orelha ficou relampeando o osso! o índio era um índio touro, mas até touro se ajoelha, cortado do beiço a orelha amontoou-se como um couro e aquilo foi um estouro, daqueles que dava medo, espantou-se o chinaredo e aquilo foi uma zoada, parecia até uma eguada disparando num varzedo! não há quem pinte o retrato de um bochincho - quando estoura, tinidos de adaga - espora e gritos de desacato. berros de quarenta e quatro de cada canto da sala e a velha gaita baguala num vanerão pacholento, fazendo acompanhamento do turumbamba de bala! É china que se escabela, redemoinhando na porta e chiru da guampa torta que vem direito à janela, gritando - de toda guela, num berreiro alucinante, Índio que não se garante, vendo sangue - se apavora e se manda - campo fora, levando tudo por diante! sou crente na divindade, morro quando deus quiser, mas amigos - se eu disser, até periga a verdade, naquela barbaridade, de chínaredo fugindo, de grito e bala zunindo, o mulato - alheio a tudo, tocava um xote esclinudo, já quase meio dormindo! e a coisa ia indo assim, eu balanceei a situação, já quase sem munição, e todos atirando em mim. qual ia ser o meu fim, me dei conta - de repente, eu não vou ficar pra semente, mas gosto de andar no mundo, me esperavam lá nos fundo, e eu saí na porta da frente... e dali ganhei o mato, abaixo de tiroteio e ainda escutava o floreio da cordeona do mulato e, pra encurtar o relato, me bandeei pra o outro lado, cruzei o uruguai, a nado, que o meu pingo era um capincho e a história desse bochincho faz parte do meu passado! e a china? a china - eu nunca mais vi no meu gauderiar andejo, somente em sonhos a vejo num bárbaro frenesi. talvez ande - por aí, no rodeio das alçadas, ou - talvez - nas madrugadas, seja uma estrela chirua dessas - que se banha nua no espelho das aguadas!
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